ENSINO QUE TRANSFORMA” ENTRA NA TERCEIRA FASE COM APOSTA NA CONSOLIDAÇÃO DOS RESULTADOS.

GESTORES ESCOLARES APONTAM FALTA DE PORTFÓLIOS, NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS E CONSERVAÇÃO DOS LIVROS COMO DESAFIOS, ENQUANTO O PROJECTO DEFENDE MAIOR PARTICIPAÇÃO DO GOVERNO.

O Centro de Aprendizagem e Capacitação da Sociedade Civil (CESC), em parceria com a Pestalozzi Children’s Foundation, lançou a terceira fase do projecto “Ensino que Transforma”, iniciativa que visa contribuir para a melhoria da qualidade do ensino primário, com especial atenção às competências básicas de leitura, escrita e cálculo.

A nova fase surge depois de dois ciclos de implementação, durante os quais, segundo os intervenientes, foram registados progressos nas práticas pedagógicas, na capacitação de professores e no acompanhamento da aprendizagem dos alunos.

Entretanto, o lançamento da terceira fase também serviu para expor desafios que continuam a afectar a implementação do projecto nas escolas.

FERNANDO LANGA | GESTOR ESCOLAR

“NUNCA RECEBEMOS A 100% DOS PORTFÓLIOS”

Fernando Langa, gestor escolar e coordenador da ZIP 5.º Ensino Primário Municipal de Maputo, que trabalha na Escola Básica de Mavalane B, considera que a disponibilidade dos instrumentos pedagógicos continua a ser um dos principais desafios.


Segundo Langa, as escolas abrangidas pelo projecto nem sempre recebem a totalidade dos portfólios necessários para realizar a avaliação dos alunos.

«“Nunca recebemos a 100%, o que acaba criando uma dificuldade na avaliação dos nossos alunos.”»

Perante a insuficiência dos materiais, as escolas recorrem à reprodução dos portfólios para garantir que um número maior de alunos possa ser avaliado.

A estratégia, contudo, representa despesas adicionais para as escolas, que, segundo o gestor, não estavam previstas no orçamento do sector.

PORTFÓLIOS PRECISAM DE SER MAIS INCLUSIVOS

Fernando Langa considera igualmente necessária uma revisão dos conteúdos dos portfólios, sobretudo para responder à diversidade existente nas escolas.


O gestor afirma que existem alunos com necessidades educativas especiais que precisam de instrumentos pedagógicos adaptados às suas condições de aprendizagem.

Segundo Langa, esta preocupação já havia sido apresentada aos parceiros durante fases anteriores, mas ainda não encontrou uma resposta considerada suficiente.

O responsável defende, por isso, uma avaliação inicial do nível de aprendizagem de cada aluno, seguida da utilização de portfólios adequados às diferentes necessidades.

NÍVEIS DE APRENDIZAGEM TAMBÉM EXIGEM MATERIAIS DIFERENCIADOS

Outro desafio apontado está relacionado com a adequação dos conteúdos dos portfólios ao nível dos alunos.

Langa explica que alguns estudantes já apresentam conhecimentos superiores aos exercícios propostos, enquanto outros necessitam de actividades mais básicas.

Na sua perspectiva, a diferenciação dos instrumentos permitiria melhorar a avaliação e produzir resultados mais próximos da realidade de cada aluno.

Apesar das limitações, o gestor considera que o projecto tem produzido benefícios nas escolas e defende a sua continuidade.

«“Estamos felizes e gostaríamos de continuar e ampliar-se um bocadinho mais.”»

ESCOLA PRIMÁRIA DE INGUIDI PEDE INCLUSÃO

Fernando Langa aproveitou igualmente a ocasião para defender a inclusão da Escola Primária de Inguidi no projecto.

Segundo o responsável, a escola encontra-se fora da intervenção, apesar de pedidos anteriores para que pudesse beneficiar das actividades desenvolvidas pelo “Ensino que Transforma”.

Para Langa, a inclusão da escola permitiria ampliar o número de alunos beneficiários e levar os instrumentos e capacitações a mais comunidades.

GESTORES ESCOLARES | RESULTADOS SÃO VISÍVEIS

Os gestores escolares que acompanham a implementação do projecto consideram que as capacitações dirigidas aos professores estão a produzir mudanças nas práticas pedagógicas.

Na Escola Básica de Mavalane B, por exemplo, os responsáveis afirmam ter observado melhorias no trabalho dos professores e no desenvolvimento das competências básicas dos alunos do primeiro ciclo.

A prioridade passa por garantir que as crianças consigam dominar competências fundamentais, nomeadamente ler, escrever e contar.

«“É isto que eu posso assim dizer que vale a pena continuar.”»

O LIVRO-CADERNO E O DESAFIO DA CONSERVAÇÃO

Entre os desafios apresentados durante o encontro esteve também a conservação dos livros e materiais escolares.

Os gestores explicam que, embora as crianças tenham acesso aos livros, muitos destes materiais ficam danificados em poucas semanas ou meses devido ao uso diário.

Para responder ao problema, as escolas têm realizado encontros com pais e encarregados de educação, procurando sensibilizá-los sobre a importância de conservar os livros e acompanhar o processo de aprendizagem dos filhos.

A escola considera que a participação dos pais é fundamental para garantir que os materiais possam ser utilizados durante todo o período previsto..

“A TERCEIRA FASE VAI CONSOLIDAR O QUE FOI FEITO”

Cristiano Rui Munguambe, gestor do projecto “Ensino que Transforma”, explica que a terceira fase terá como principal prioridade a consolidação das acções desenvolvidas nos dois ciclos anteriores.

Segundo Munguambe, o projecto pretende aproveitar as experiências acumuladas desde 2020 para melhorar os resultados já alcançados.

«“Estaremos a investir mais na consolidação do que já fizemos nas duas fases anteriores.”»

O gestor esclarece que, nesta etapa, a prioridade não será expandir significativamente a intervenção para novas escolas, mas fortalecer o trabalho nas instituições que já participam do projecto.

PROJECTO QUER DEIXAR INSTRUMENTOS AO GOVERNO

 Munguambe revela ainda que uma das prioridades desta fase é criar condições para que as experiências e instrumentos desenvolvidos possam ser assumidos pelas estruturas governamentais.

A intenção é que as actividades não terminem simplesmente com o encerramento do projecto, mas possam continuar através das instituições responsáveis pela educação.

Segundo o gestor, a sustentabilidade constitui actualmente uma das principais preocupações da iniciativa.

PAIS SÃO CHAMADOS A PARTICIPAR NA EDUCAÇÃO,Desde a primeira fase, o projecto tem promovido debates com pais e encarregados de educação sobre a sua participação no processo de aprendizagem.

Cristiano Munguambe explica que os pais são incentivados a acompanhar os filhos em casa, através da leitura, revisão das matérias, exercícios de cálculo e outras actividades.

A participação também é promovida através dos conselhos de escola, considerados espaços importantes para a intervenção dos encarregados de educação nas decisões relacionadas com a vida escolar.

Segundo o gestor, os conselhos de escola têm sido capacitados para reforçar a participação comunitária.

GOVERNO É CHAMADO A GARANTIR A SUSTENTABILIDADE, Apesar dos resultados considerados positivos, Cristiano Rui Munguambe alerta que a capacitação dos professores e a entrega de materiais não são suficientes para garantir mudanças permanentes.

O gestor defende a existência de acompanhamento e assistência contínua às escolas.

«“Não basta capacitar. Não basta proporcionar instrumentos, é preciso que haja um acompanhamento, uma assistência permanente.”»

Na sua perspectiva, cabe às estruturas governamentais responsáveis pela educação, tanto ao nível distrital como municipal, assegurar o acompanhamento das escolas e garantir a continuidade das boas práticas introduzidas pelo projecto.

DESAFIOS E PERSPECTIVAS DA TERCEIRA FASE

Com o início da terceira fase, os intervenientes colocam sobre a mesa quatro desafios principais:

1. DISPONIBILIDADE DOS MATERIAIS: Garantir que as escolas recebam portfólios suficientes para todos os alunos.

2. INCLUSÃO :Adaptar os instrumentos às necessidades educativas especiais e aos diferentes níveis de aprendizagem.

3. CONSERVAÇÃO DOS LIVROS : Reforçar o envolvimento dos pais e das comunidades na preservação dos materiais escolares.

4. SUSTENTABILIDADE : Garantir que as práticas introduzidas pelo projecto continuem a ser aplicadas pelas escolas e acompanhadas pelas estruturas governamentais.

“ENSINO QUE TRANSFORMA”: ENTRE RESULTADOS E NOVOS DESAFIOS.

A terceira fase do “Ensino que Transforma” inicia-se, assim, num contexto marcado por resultados considerados encorajadores, mas também por desafios que exigem respostas concretas.

Para os gestores escolares, o projecto trouxe novas ferramentas, capacitação dos professores e mecanismos para acompanhar a evolução dos alunos.

Para a equipa do projecto, a prioridade passa agora por consolidar as aprendizagens acumuladas e preparar condições para que as práticas desenvolvidas possam ser sustentadas pelas instituições públicas.

O desafio colocado aos diferentes intervenientes é transformar os ganhos alcançados em resultados permanentes na aprendizagem das crianças, garantindo que cada aluno tenha acesso aos materiais necessários e a uma educação adequada ao seu nível e às suas necessidades.

FONTE: Declarações recolhidas durante o lançamento da terceira fase do projecto “Ensino que Transforma”, com intervenções de gestores escolares e do gestor do projecto, Cristiano Rui Munguambe.

REPORTAGEM: Filipe Januário Cossa

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