Em localidades onde o transporte público é escasso, irregular ou demasiado caro para muitas famílias, a motorizada representa uma alternativa rápida e acessível. Para milhares de pessoas, é também uma importante fonte de rendimento, sobretudo através do transporte de passageiros.
Mas existe um outro lado desta realidade que merece atenção: os acidentes envolvendo motociclos continuam a provocar mortes e ferimentos, numa situação que preocupa comunidades e autoridades.
Estamos perante uma solução de mobilidade ou diante de um problema crescente de segurança rodoviária?
QUANDO A NECESSIDADE SE TRANSFORMA EM RISCO
O problema não está necessariamente na existência das motorizadas.
Pelo contrário, estes veículos desempenham uma função económica e social importante em muitas comunidades. Permitem transportar pessoas e mercadorias, ligam zonas rurais e urbanas e facilitam o acesso a mercados, escolas, hospitais e outros serviços.
O problema surge quando a circulação é acompanhada por comportamentos de risco, falta de formação, ausência de equipamento de protecção, excesso de velocidade e deficiente fiscalização.O Instituto Nacional dos Transportes Rodoviários (INATRO) destaca a importância do uso do capacete pelos motociclistas e aponta a velocidade como um dos factores associados ao risco de acidentes rodoviários.
VELOCIDADE E FALTA DE PROTECÇÃO
Entre os factores que podem contribuir para a ocorrência e gravidade dos acidentes envolvendo motociclos estão:
Excesso de velocidade;
Condução sem habilitação legal;
Falta ou utilização incorrecta do capacete;
Condução sob efeito de álcool;
Ultrapassagens perigosas;
Transporte inadequado ou excessivo de passageiros;
Falta de formação dos motociclistas;
Deficiente fiscalização;
Más condições de algumas estradas;
Falta de iluminação em determinadas vias;
Comportamentos de risco de alguns automobilistas.
A vulnerabilidade do motociclista é particularmente elevada.
Ao contrário de quem viaja dentro de um automóvel, o condutor ou passageiro de uma motorizada praticamente não dispõe de uma estrutura que o proteja directamente em caso de colisão.
Por isso, um acidente que poderia resultar apenas em danos materiais para um automóvel pode transformar-se numa tragédia quando envolve um motociclista.
O NORTE E A DEPENDÊNCIA DAS MOTORIZADAS
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Em determinadas localidades, são mesmo uma das poucas alternativas disponíveis para chegar rapidamente a comunidades, mercados ou serviços públicos.
Mas essa dependência exige também maior responsabilidade.
Casos de acidentes fatais envolvendo motociclos têm sido registados em diferentes pontos do país.
Em Nampula, por exemplo, duas pessoas morreram em Abril de 2024 após a motorizada em que seguiam embater contra uma viatura, segundo o Jornal Notícias.
Noutra ocorrência, também na província de Nampula, um jovem morreu na sequência de uma colisão entre duas motorizadas, enquanto outras três pessoas ficaram gravemente feridas, segundo a Rádio Moçambique.
Estes casos, embora não representem por si só uma estatística nacional, mostram a dimensão humana que está por detrás dos números da sinistralidade rodoviária.
UM PROBLEMA QUE ULTRAPASSA AS MOTORIZADAS
É importante não transformar as motorizadas no único culpado pelos acidentes.
A sinistralidade rodoviária em Moçambique é um problema muito mais amplo.
Dados divulgados pelo INATRO mostram uma evolução preocupante dos acidentes rodoviários no país. Num dos balanços apresentados pelo instituto, foram registados 488 acidentes, contra 459 no período homólogo, enquanto os óbitos passaram de 555 para 662, representando um aumento de 19%.
Estes números demonstram que a segurança rodoviária deve continuar no centro das atenções das autoridades e da sociedade.
Pois na província de Maputo no distrito de Marracuene 4 pessoas da mesma família também perderam as suas vidas depois de um acidente de moto.
QUEM É RESPONSÁVEL?
Quando ocorre um acidente, é comum apontar imediatamente o dedo ao motociclista.
Mas a realidade é mais complexa.
A responsabilidade pela segurança rodoviária deve envolver motociclistas, automobilistas, passageiros, autoridades, escolas de condução, municípios e comunidades.
O motociclista deve respeitar as regras de trânsito.
O automobilista deve respeitar os motociclistas e manter uma condução defensiva.
As autoridades devem reforçar a fiscalização e garantir o cumprimento da legislação.
As instituições responsáveis pelo transporte devem apostar na formação.
E as comunidades devem deixar de normalizar comportamentos perigosos nas estradas.
NÃO PODEMOS NORMALIZAR A MORTE
Uma sociedade não pode aceitar a morte nas estradas como se fosse uma consequência inevitável da mobilidade.
Se as motorizadas são indispensáveis para milhares de cidadãos, a solução não passa simplesmente por proibir a sua utilização.
É necessário formar, fiscalizar, responsabilizar e proteger.
É igualmente necessário identificar os pontos de maior risco, melhorar as condições das vias e reforçar as campanhas de educação rodoviária.
Cada motociclista que sai de casa deve ter a possibilidade de regressar vivo.
Cada passageiro deve poder utilizar este meio de transporte sem transformar uma simples viagem numa tragédia.
MOTORIZADAS DA MORTE?
A expressão pode parecer dura.
Mas serve para chamar atenção para uma realidade que não deve ser ignorada.
A motorizada, por si só, não mata.
O perigo resulta da combinação de factores como velocidade excessiva, falta de formação, condução irresponsável, consumo de álcool, ausência de equipamento de protecção, más condições das vias e deficiente fiscalização.
Por isso, cada acidente fatal deve provocar mais do que tristeza.
Deve provocar perguntas:
O que falhou?
Quem poderia ter evitado?
O que precisa de ser corrigido?
E quantas vidas ainda podem ser salvas?
Porque, no final, a verdadeira questão não é saber quantas motorizadas circulam.
A verdadeira questão é saber quantas vidas estamos dispostos a perder antes das autoridades tomarem medidas?
por: Filipe Januário Cossa.
#COSSAINFORMACAONEWS/2026.



